Há anos em que a vida parece um vendaval. Os meus, desde os 19 anos foram quase sempre assim. Esse é o preço por nós emanciparmos mais cedo que todas as amigas. Ninguém está lá para nós amparar as quedas mas não trocaria essa minha decisão por nada.
Depois juntei-me, fui mãe e a vida não ficou mais fácil.
Mudanças sempre me deixaram muito ansiosa...preferi sempre uma vida apática do que com muitos tumultos.
Mas este ano foi diferente. Tenho abraçado as mudanças e tenho-as procurado na verdade. E acho que... mesmo no meio da correria, tenho finalmente encontrado uma calmaria em vez de ansiedade.
Nunca tive tanto para fazer nem tanto a acontecer ao mesmo tempo. Nunca houve tantos papéis para tratar, decisões para tomar, horários e prazos para cumprir, responsabilidades para carregar. Há dias em que adormeço antes de a cabeça tocar na almofada e acordo já a pensar na lista interminável do que falta.
Mas, ao mesmo tempo...
Há uma paz em mim que nunca tinha conhecido.
É difícil de explicar. Porque, vista de fora, a minha vida parece estar um caos. Ouço isto de quem está à minha volta e tem alguma noção de tudo. Mas é um caos bonito. Um dos mais bonitos onde já estive. Daqueles que nascem quando estamos finalmente a construir, em vez de apenas sobreviver.
Talvez não entendam...mas meu coração está tão em paz.
Durante muitos anos vivi sempre a correr atrás da próxima meta. Sempre com a sensação de que, quando alcançasse "aquela coisa", finalmente ia conseguir respirar.
Hoje percebo que a paz nunca esteve na meta.
Estava no caminho.
Também aprendi que às vezes as metas, não eram as certas e aprendi a abrir mão. Que me foi tão difícil e tão doloroso por tanto tempo. Hoje, não é mais. E por milagre que pareça...a vida começou a mostrar-me coisas maravilhosas depois disso.
Esta semana tenho estado mais ausente daqui porque a vida, simplesmente, pediu-me presença noutros lugares. Entre mudanças, caixas espalhadas pela casa, o trabalho, o Gustavo, novos começos e uma lista de pequenas grandes responsabilidades, os dias parecem voar.
E, mesmo assim, não sinto pressa.
Sinto gratidão.
Estou verdadeiramente grata por estar cansada pelas razões certas. Por me deitar exausta depois de dias cheios de vida. Por olhar à minha volta e perceber que muitas das preocupações de hoje são, afinal, sonhos pelos quais a Emma de há alguns anos teria dado tudo.
Às vezes paro por um instante e penso: "É isto."
Não porque a vida esteja perfeita. Não está. Ou porque tenha conquistado tudo o que queria...está longe disso. Continuo sem saber muitas respostas.Sem ter a certeza se o caminho é este...mas agora é. Amanhã, podemos redirecionar tudo.
Pela primeira vez em muito tempo, deixei de sentir que estou a lutar contra a vida. Sinto que estou a caminhar com ela.
Talvez seja isso que significa crescer.
Perceber que a felicidade raramente faz barulho. Não chega acompanhada de fogo de artifício. Chega devagarinho. Esconde-se na rotina, na tranquilidade de uma casa que começa a ganhar alma, nas gargalhadas do meu filho, no trabalho que construí com as minhas próprias mãos, nas pequenas conquistas que quase passam despercebidas.
E é precisamente por isso que tenho estado um pouco mais ausente.
Porque há capítulos que precisam primeiro de ser vividos, antes de serem contados.
E eu estou a viver um dos mais bonitos da minha vida.
Já já volto cheia de novidades.