Há um cansaço que já não é só físico. É um cansaço que se sente na cabeça, no corpo, na forma como as mulheres acordam e já parecem estar “atrasadas” antes mesmo de o dia começar.
Trabalho com mulheres e para mulheres. Os ultimos 13 anos da minha vida foi dedicado e continua sendo, ao mundo feminino. Aqui no blog, no canal e principalmente no meu espaço de estética. Quando se tem um tipo de negocio dedicado a beleza, muitas mulheres procura-nos para desabafar e atualizar dos problemas da vida. Somos muitas vezes amigas, psicólogas, colo, família. E nos últimos anos surge cada vez mais o tema da exaustão, do bournout, do esgotamento mental e fisico.
“Porque é que as mulheres estão cada vez mais cansadas?” podia ter mil respostas simples.
Trabalho, filhos, casa, pressão social. Mas a verdade é que o que está a acontecer é mais profundo do que isso. É uma soma silenciosa de coisas pequenas que, juntas, deixam de ser pequenas.
Muitas mulheres já não descansam verdadeiramente. Mesmo quando o corpo está parado, a cabeça continua a trabalhar.
Há sempre algo por organizar, alguém para lembrar, alguma culpa a resolver, alguma mensagem por responder, algum plano a ajustar. E isto não acontece só em dias difíceis, acontece todos os dias, como um fundo constante. O descanso deixou de ser descanso e passou a ser apenas uma pausa entre tarefas.
Não acontece só com as mães mas principalmente com elas.
Eu sempre fui super enérgica. Dormia pouco, treinava e trabalhava muito. Nunca senti o cansaço que senti à 1 ano e meio. Tive que parar porque tarefas simples eram esgotantes. Achei que estava à beira de uma depressão até que um especialista me disse para tentar tirar 15 dias sem trabalho, sem marido, sem filhos, sem ver ninguém e sem responder a mensagens de trabalho. Tinha uma viagem marcada para o brasil. Cancelei tudo e fiquei sozinha enquanto meu marido foi com meu filho. Ele entendeu que eu precisava dessa pausa e foram 17 dias maravilhosos de amor com o meu sofá e a minha TV. Não fazia essa pausa desde os 19 anos. E percebi...que não era depressão. Era só o meu corpo a precisar de um reset.
A carga invisível que ninguém vê
Uma das maiores razões deste cansaço é aquilo a que se chama, mesmo que ninguém use muito esse termo no dia a dia, a carga mental.
Não é só fazer as coisas. É ter de pensar em tudo o que precisa de ser feito.
Saber que falta comprar detergente antes de acabar. Lembrar que há consulta marcada. Perceber que a roupa das crianças já não serve. Organizar aniversários, refeições, compromissos, escola, trabalho… e ainda antecipar o que pode correr mal.
E o mais duro é que isto raramente é reconhecido. Quando está tudo feito, parece “normal”. Quando não está, parece falha.
Tenho um marido maravilhoso que ajuda em tudo e mais alguma coisa. Mas precisa de indicações para tudo. A lista de compras, que indique qual o supermercado, que lhe diga para levar o lixo, para ligar a máquina de lavar e que roupas pôr...tudo.
Claro que ele faz o melhor que consegue, mas a cabeça dele funciona de forma muito mais leve que a minha. Por isso vivemos mais cansadas num mundo que necessita de nós para funcionar.
A pressão para ser tudo ao mesmo tempo
Hoje espera-se que uma mulher consiga ser muitas versões de si mesma ao mesmo tempo.
Profissional competente. Mãe presente. Parceira disponível. Amiga atenta. Filha que não falha. E ainda, de preferência, alguém que cuida de si, faz exercício, come bem, dorme bem, tem casa organizada e mantém a vida emocional estável.
O problema não é querer fazer tudo isto. O problema é achar que falhar em qualquer uma destas áreas é sinal de insuficiência.
E ninguém consegue ser tudo, todos os dias, sem se esgotar. Entendi isso e passei a tentar cobrar-me menos.
A falta de espaço para parar sem culpa
Parar devia ser simples. Mas para muitas mulheres não é.
Quando há uma pausa, vem logo a sensação de que há algo mais importante por fazer. Descansar passa a ser um luxo que precisa de ser “merecido”.
E isso cria um ciclo estranho: quanto mais cansada a pessoa está, mais difícil fica descansar de verdade.
Acredito que vivemos cada vez mais numa sociedade acelerada que nos ensina que o bonito é ser ocupada, com uma agenda lotada e a sanidade mental por um fio. Precisamos resgatar com urgência a necessidade e o prazer de não fazer nada. Está tudo bem....
O peso emocional que também cansa
Nem todo o cansaço vem de tarefas. Muito vem de emoções acumuladas.
Preocupar-se com tudo e com todos. Segurar conversas difíceis. Evitar conflitos para manter a paz. Estar disponível emocionalmente mesmo quando não há energia.
Há mulheres que passam o dia inteiro a regular o ambiente à sua volta... em casa, no trabalho, nas relações, e acabam por não ter espaço para si próprias.
As mulheres têm hoje mais liberdade do que em qualquer outra geração. Isso é um facto. Mas as expectativas não desapareceram, acumularam-se. Antes existia um papel mais definido. Hoje existem vários, todos ao mesmo tempo, e sem um “manual” claro de como equilibrar tudo. E isso cria uma sensação constante de insuficiência. Como se nunca fosse suficiente em lado nenhum.
O que quero dizer-vos é que estamos a viver em excesso. Excesso de responsabilidades. Excesso de pensamento. Excesso de expectativas. Excesso de culpa. Excesso de exigência.
E quase nenhum espaço real para simplesmente existir sem estar a gerir alguma coisa. É assim que a vida passa e não a vivemos.
Precisamos começar a mudar tudo aos poucos, a perceber que o cansaço não é falha pessoal. É um sinal. E às vezes, só isso já tira um pouco do peso, não resolve tudo, mas impede que ele cresça em silêncio. Porque ninguém aguenta eternamente estar sempre a dar conta de tudo. E talvez o primeiro passo seja esse: parar de achar que o problema é individual, quando na verdade é estrutural.















